Gratidão na música e na escrita.

terça-feira, outubro 27, 2015

Para os que me conhecem pelo menos um pouco, compreendem a importância música na minha vida, principalmente desde o ano passado. É algo que me move atualmente e, principalmente, torna em notas musicais os sentimentos e experiências que vivo no meu dia-a-dia. Ela já foi muitas vezes a força que eu precisava, a companheira de noites solitárias, a forma de motivação quando havia o desânimo, a expressão da vitória quando tudo corria bem. A presença da música casava com a necessidade de escrever que tenho e essa combinação salvou a minha vida. Sem amenizar ou dramatizar, e sim, literalmente salvou a minha vida em 2014 (mais sobre isso aqui).
A verdade é que hoje foi um dos dias que eu mais lembrei da importância disso. Esse fim de semana encontrei, arrumando o quarto, um caderninho onde tinha uma das versões do "diário de mood". Desde a metade de 2014, eu escrevo uma entrada diária em um caderno sobre como foi o dia. Antes fazia porque era uma atividade exigida por um psicólogo, depois comecei a ter como hábito quando estava bem novamente. Sentei na cama e passei a folhear aquilo. 
Haviam muitas músicas entre as minhas próprias frases de desespero. Foi um período muito longo, muitas vezes eu era cruel comigo mesma e eu desistia inúmeras vezes de tentar levantar da cama. Mas havia um caderninho, um blog e um fone de ouvido. Sorri ao ler as passagens. Era muito duro ler o que escrevia sobre mim mesma naquele período. Aquela era eu sim, isso ninguém pode falar. Uma doença não te muda, uma doença te incapacita. Sua essência é aquela, mas talvez você precise entendê-la um pouco mais. 
"isso é uma fase", "isso passa", "por que você não sorrir mais?". Porque se uma doença dessa pudesse ser curada com palavras de efeito, não teria pessoas se matando a cada 40 segundos em algum lugar desse planeta, porra! Ninguém tem o direito de dizer o que eu devo fazer nessa merda. Ninguém mais. Se eu decidir continuar tentando, eu decidi pela minha vida, eu decidi. EU!
Bom, essa foi uma parte extraída do caderno. Provável que eu estivesse enfurecida com o estigma que a doença me colocava. Não era fácil você ser observada como fraca, incompetente, chorona, sumida. Mas tem uma coisa que ninguém, absolutamente ninguém pode tirar de mim: eu fui a minha própria cura. Fui quando procurei por ajuda profissional sozinha, esquecia do mundo na dança, me segurei na música e desabafava na escrita. Isso ninguém pode tirar de mim. Isso nenhum comprimido faz - não que eu seja contra eles, pelo contrário, eu conheço-os bem.
Fechei o caderninho e devolvi ele para a estante. Deitei para ouvir a mistura de sons entre a chuva e Mumford & Sons no fundo. Hoje eu não sinto nada mais do que sentia um ano atrás. Sei das coisas e pessoas que perdi, mas sou ainda mais satisfeita pelas mudanças que tiveram que ocorrer por causa disso.
Em mim há um sentimento muito forte de gratidão pelo que vivi, uma vontade de me conhecer cada vez mais e de estar finalmente em paz enquanto convivo com a solidão. Solidão é uma coisa que deixaram pejorativa demais no nosso dia-a-dia. Solidão nem sempre é ruim. Foi com ela que eu aprendi a conviver comigo mesma. É a necessidade de ter a mim mesma que me mantêm sã.  Foi assim que eu finalmente entendi quem eu era.
Gosto das madrugadas porque o silêncio parece cantar junto comigo para as paredes. Gosto de abraçar o travesseiro antes de dormir e pensar que alguém em especial também deve tá dormindo agora também. Eu gosto de escrever em qualquer lugar, sempre carrego cadernos e lapiseiras. Assim como raramente as pessoas vão me ver sem fone de ouvido. Gosto de cantar no banho ouvindo música. E de observar as pessoas de longe e escrever idealizando as supostas vidas delas em textos que nunca publico. E gosto da minha vida assim, mais simples, com menos ruídos e com muito mais pores-do-sol da minha sacada enquanto me espreguiço no sofá escrevendo e ouvindo algo que me embale nas tardes comuns.

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